segunda-feira, 16 de março de 2015

A influência do humor na hora de escolher uma roupa

A influência do humor na hora de escolher uma roupa - Blog Preconmoda


Você já deve ter se deparado com a seguinte questão: "eu não tenho roupa no meu guarda-roupa!", mesmo com o guarda-roupa cheio de roupas. Mas o fato é que você não tem a roupa que combine com seu estado de espírito do momento.
Estava lendo um livro de moda escrito por duas psiquiatras francesas que trabalham atendendo crianças e adolescentes. Como elas tinham interesse na questão da influência das roupas na vida das pessoas, elas pesquisaram e desenvolveram o livro.
A roupa é um elemento muito importante na vida das pessoas, pois é através delas que nos encaixamos em grupos sociais, escolares, familiares, enfim, em grupos que às vezes nos identificamos e às vezes não (às vezes não, porque sempre buscamos estar inseridos num grupo que nos aceitem, e acabamos aceitando as "regras" estabelecidas por ele).
Copiei um trecho do livro, em que as escritoras descrevem o que ocorreu na história (descrita anteriormente, mas não digitarei a história pra deixa-los curiosos para ler o livro na íntegra que é muito interessante, pois descreve várias fases de nossas vidas e as mutações da fase infantil a adulta através do vestuário), num olhar clínico (de psiquiatra), sobre como nosso humor influência na escolha da nossa roupa, como as cores por exemplo.


A moça está de mau humor, sofrendo por uma sensação dolorosa de incompletude. Seu sentimento depressivo é projetado em suas roupas, percebidas como sem graça e apertadas. Elas constituem uma segunda pele, sobre a qual imprimem-se as emoções e os ressentimentos. A imagem exterior e a imagem interior confundem-se e interagem uma com a outra. É por essa razão que as roupas nunca parecem completamente as mesmas em nossos cabides e quando as vestimos. Sobre o nosso corpo, a roupa assume, aos nossos olhos, as cores dos nossos humores - tristeza, cansaço ou alegria. Assim como a personagem da história acima, podemos ter a ilusão, ao mudarmos de roupa, de mudarmos de humor, de nos livrarmos de uma identidade pesada demais para os nossos ombros. A moça, por um jogo de projeções, torna seu traje responsável pelo seu mal-estar e quer se livrar dele para comprar uma roupa "cor de alegria", que lhe restituirá o gosto de viver. A roupa representa então um espaço potencial de jogo, em que o Eu tenta se encontrar, apreender alguma coisa de si mesmo que lhe escapa. "À flor da pele", a jovem procura na roupa nova um involucro não é tanto a musselina do vestido, mas o olhar do outro pousado sobre aquela roupa. É esse olhar, fruto de sua fantasia, que constituirá para ela o seu invólucro reparador.
No café, ela se mostra alheia ao mundo e às coisas. Sente-se excluída da dinâmica do desejo. O sentimento de não fazer parte desse mundo (o garçom do café não repara nela, as mães de família cuidam de seus afazeres) tem um efeito tão doloroso que lhe impõe uma solução. É preciso voltar ao palco, estar novamente presente no olhar dos outros, ser objeto de desejo do outro, para se reconstruir, se reencontrar. A roupa vai cumprir esta função, e a solução é a reconquista do desejo através da busca de uma roupa nova. Sua busca tem então um fim (o desejo do outro) e um meio (a roupa). Seu percurso pela loja torna-se quase onírico, alucinado; ela não enxerga mais ninguém e vagueia, solitária, em busca de seu graal.
O espelho intervém nesse momento de interlocução consio mesma e de prazer solitário. A jovem avalia-se e dirige ao seu reflexo a pergunta enigmática do desejo do outro, para a qual as revistas femininas ou a vendedora da loja oferecem um esboço de resposta. Tentar adequar-se a essas imagens é querer garantir um valor de desejo cuja natureza é justamente não poder ser estocada, é estar sempre em movimento. Ele só pode ser regenerado, nunca armazenado. Captada a atmosfera de uma estação numa roupa, ela não pode se fixar ali por muito tempo, sob o risco de se fossilizar.

* Joubert, Catherine; Stern, Sarah. Dispa-me!: O que nossa roupa diz sobre nós. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. pg. 44 e 45.

Publicado em 10 de fevereiro de 2011.

Hasta!

Nenhum comentário: